Caso Elize Matsunaga: como a perícia reconstruiu o homicídio

Você já pensou em como um homicídio pode ser reconstruído quando não há testemunhas oculares? Sem ninguém para contar o que aconteceu, o processo depende de outra testemunha — silenciosa, mas insistente: o vestígio. Foi assim no caso Elize Matsunaga, um dos julgamentos mais longos da história do Tribunal do Júri de São Paulo.
Em 19 de maio de 2012, o empresário Marcos Kitano Matsunaga, então diretor-executivo da Yoki Alimentos, sumiu do apartamento da família, na Vila Leopoldina, zona oeste da capital paulista. A esposa, Elize Matsunaga, confessou o crime dias depois: atirou na cabeça do marido, esquartejou o corpo e descartou as partes em sacos plásticos. Mas ela não foi condenada apenas por ter confessado — e sim pelo que a perícia conseguiu comprovar.
Neste artigo, explico como a perícia criminal reconstruiu a dinâmica do crime, da primeira vistoria do apartamento à exumação que mudou o júri — e por que laudos assim fazem diferença real em casos sem testemunhas. Equipes como a da Laborda Ventura e Peritos Associados atuam exatamente nessa fronteira entre o vestígio e a decisão judicial.
O crime deixa rastros. A perícia é quem aprende a lê-los.
O caso: uma noite de maio de 2012 na Vila Leopoldina
Marcos Matsunaga tinha 42 anos e era neto do fundador da Yoki Alimentos. Elize, 38 anos à época, era técnica em enfermagem e bacharel em Direito. Na noite do crime, as imagens do circuito interno do edifício registraram Marcos subindo ao apartamento do 17º andar carregando uma caixa de pizza — e foi a última vez que ele apareceu com vida, segundo a cobertura do Jornal Nacional da TV Globo.
A dinâmica foi reconstruída pela confissão de Elize e, sobretudo, pelos exames periciais. O disparo ocorreu na sala, com arma de fogo; o corpo foi arrastado até o quarto de hóspedes, onde permaneceu por cerca de dez horas; depois, o esquartejamento em sete partes, acondicionadas em sacos plásticos e transportadas em malas de viagem. As malas saíram do prédio pela área de serviço na manhã seguinte; as partes do corpo foram achadas à beira de uma estrada em Cotia, na Grande São Paulo. O rastreamento do celular mostrou que Elize seguiu por cerca de 140 quilômetros até Capão Bonito, onde descartou as malas.
Um dado ajuda a entender o cenário: o casal mantinha cerca de 30 armas espalhadas pelo apartamento, e a pistola usada no crime estava em uma gaveta da sala. É nesse ponto que a perícia entra: sem testemunhas, reconstruir o ocorrido dependia de responder perguntas objetivas com base no que restou no local.
O que a perícia encontrou no apartamento

A primeira vistoria técnica do apartamento não identificou vestígios aparentes — a cena havia sido limpa. Na prática forense, porém, a ausência de sinais visíveis raramente encerra a investigação. A análise das imagens das câmeras do edifício já apontava um caminho: Marcos subiu e nunca saiu; Elize saiu no dia seguinte com as malas.
Foi após a confissão que a nova vistoria localizou os vestígios que a limpeza não apagou. Os peritos encontraram sangue exatamente no trajeto pelo qual Elize disse ter arrastado o corpo da sala ao quarto de hóspedes, além de um rolo de sacos de lixo, na despensa, semelhante ao usado nas partes do corpo.
O vestígio fala. A limpeza não consegue calá-lo.
E aqui entra um princípio caro à criminalística: o vestígio não precisa ser visível para existir. Sangue removido por produtos de limpeza pode deixar resíduos detectáveis, e a comparação com a cena reconstruída permite confirmar ou descartar versões. É o mesmo raciocínio da análise de padrões de manchas de sangue, em que a distribuição do material biológico ajuda a reconstituir movimentos, posições e a sequência dos eventos.
A reprodução simulada e a distância do disparo
Em junho de 2012, o Instituto de Criminalística de São Paulo realizou a reprodução simulada dos fatos — a reconstituição do crime — com a participação da ré. Durante cerca de seis horas, um boneco com a altura e o peso de Marcos foi utilizado para que Elize demonstrasse, passo a passo, como os eventos teriam se sucedido. O resultado foi uma das peças centrais do processo.
A reconstituição revelou contradições importantes entre a versão da acusada e os vestígios. Elize afirmava ter disparado a cerca de dois metros de distância, de pé e de frente para o marido. Os exames, porém, indicavam tiro a curta distância — menos de 50 centímetros —, com trajetória descendente: o projétil atingiu a têmpora esquerda e seguiu em direção à direita, o que sugeria que a vítima estava num plano mais baixo. Essas são exatamente as informações que o exame de distância de tiro ajuda a estabelecer: resíduos de disparo e características do orifício de entrada permitem estimar a proximidade entre arma e vítima e, com ela, confrontar versões.
Talvez por isso a reprodução simulada tenha tanto valor probatório: ela não repete o crime, mas testa se uma narrativa é fisicamente possível diante dos vestígios.
A exumação que mudou o julgamento
O ponto mais sensível do caso envolveu uma pergunta técnica: Marcos estava vivo quando foi esquartejado? O laudo necroscópico inicial sugeria que ele ainda apresentava sinais vitais no início da secção do corpo — o que, se confirmado, configuraria a qualificadora de meio cruel. Elize sempre sustentou que o esquartejamento ocorreu consideravelmente depois do disparo.
Diante da divergência, a defesa requereu a exumação do cadáver, deferida pelo juízo. O novo exame anatomopatológico, realizado no laboratório do IML, demonstrou a inexistência de reação vital nas regiões seccionadas — ou seja, Marcos já estava sem vida quando o corpo foi desmembrado.
Essa prova técnica foi decisiva no júri. Em dezembro de 2016, após sete dias de julgamento no Fórum Criminal da Barra Funda — um dos mais longos da história do Tribunal do Júri paulista —, Elize Matsunaga foi condenada a 19 anos, 11 meses e 1 dia de prisão, em regime fechado, por homicídio qualificado e destruição e ocultação de cadáver, conforme registro oficial do Tribunal de Justiça de São Paulo. Os jurados rejeitaram as qualificadoras de motivo torpe e de meio cruel — esta última exatamente porque a prova pericial não a sustentou.
O laudo não defende versões: confronta versões com os vestígios.
O que o caso Elize Matsunaga ensina sobre prova pericial

O caso Elize Matsunaga condensa lições que se repetem em processos criminais complexos. A primeira é que a confissão não substitui a prova técnica: mesmo após a admissão de autoria, foram os exames periciais que estabeleceram a dinâmica, a distância do disparo e o momento da morte — elementos que definiram a tipificação e a pena. O mesmo vale para outros crimes de repercussão, como o caso Suzane von Richthofen, em que a análise pericial também foi central.
A segunda lição diz respeito ao contraditório. A exumação que derrubou a qualificadora de meio cruel foi requerida pela defesa e produzida sob acompanhamento técnico — um exemplo claro de como o perito particular e o perito assistente participam do processo: não para criar versões, mas para submeter as conclusões oficiais ao rigor do exame técnico. A atuação do assistente permite questionar hipóteses, requerer novas provas e garantir que nenhuma conclusão seja aceita sem fundamento.
Por fim, o caso mostra que o valor de um laudo está no método: cadeia de custódia respeitada, exames documentados, linguagem clara e conclusões limitadas ao que a técnica permite afirmar. Na experiência da Laborda Ventura e Peritos Associados, é esse rigor que transforma uma dúvida técnica em prova — e é ele que permite ao juízo decidir com segurança.
Conclusão
O caso Elize Matsunaga, também conhecido como caso Yoki, é um retrato do quanto a perícia criminal importa quando não há testemunhas. Um disparo na sala, um corpo esquartejado, uma cena limpa: foram os vestígios, as imagens, a reprodução simulada e a exumação que permitiram reconstruir o que aconteceu e dar ao júri os elementos técnicos para decidir.
Para quem atua em casos criminais e precisa de suporte técnico na produção ou no confronto de provas, contar com uma equipe pericial especializada faz diferença real. Para conhecer os serviços da Laborda Ventura e Peritos Associados em perícia criminal, entre em contato. Nossa equipe está pronta para avaliar o seu caso com o mesmo rigor metodológico que casos como este exigem.
Perguntas frequentes
O que aconteceu no caso Elize Matsunaga?
Em 19 de maio de 2012, Elize Matsunaga atirou na cabeça do marido, Marcos Kitano Matsunaga, no apartamento do casal na Vila Leopoldina, em São Paulo, e depois esquartejou o corpo em sete partes. Ela foi condenada em dezembro de 2016 a 19 anos, 11 meses e 1 dia de prisão por homicídio qualificado e destruição e ocultação de cadáver.
Como a perícia identificou o crime no apartamento?
A primeira vistoria não encontrou vestígios aparentes, mas as câmeras do prédio mostraram a vítima subindo e nunca saindo. Após a confissão, nova vistoria localizou sangue no trajeto do arrasto do corpo e um rolo de sacos de lixo semelhante ao usado no descarte.
O que foi a reprodução simulada?
A reprodução simulada é a reconstituição do crime com a participação da acusada, utilizando um boneco com as medidas da vítima. No caso, ela revelou contradições entre a versão da ré e os vestígios, principalmente quanto à distância do disparo e às posições das pessoas na sala.
Por que a exumação foi importante?
Porque o laudo necroscópico inicial sugeria que a vítima ainda tinha sinais vitais durante o esquartejamento, o que configuraria meio cruel. O exame realizado após a exumação mostrou ausência de reação vital nas regiões seccionadas, e o júri rejeitou a qualificadora.
Quando contratar uma perícia particular em casos de homicídio?
Sempre que houver divergência técnica relevante, risco de conclusões precipitadas ou necessidade de contestar um laudo oficial. O acompanhamento de um perito assistente permite requerer novas provas — como a exumação deste caso — e garantir o contraditório.



